Desde 1556, quando os padres jesuítas fundaram a Aldeia Nova e começaram a catequizar os índios, em Santa Cruz, nasceu o Teatro em nossa terra. Era o teatro Sacro, voltado para as artes sacras e para a educação, representando aspectos da vida de Cristo, tendo seu maior momento na Semana Santa e no Natal. Depois de 1760, com a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, ministro do Rei D. José I, as peças teatrais sacras conseguiram sobreviver até chegar aos nossos dias nas igrejas e companhias teatrais.
Com a transferência da Família Real para o Brasil, em 1808, vieram as missões artísticas trazidas por Dom João VI, recomeçando na Corte, no Rio de Janeiro, o teatro Secular, graças à vinda de artistas portugueses, entre os quais João Caetano, hoje nome do teatro na Praça Tiradentes. Enquanto isso, na periferia das províncias brasileiras foram surgindo grupos teatrais, que mantiveram o teatro no adro das igrejas, como hoje se faz em Guaraná, Córrego Alegre e Jacupemba, tendo o grupo de Guaraná completado 20 anos, atraindo uma grande platéia.
Por outro lado, as escolas passaram a usar o teatro como instrumento para melhorar a aprendizagem de crianças e adolescentes, surgindo, assim, o teatro didático, que representava as vogais, os dias da semana, as cores, as estações do ano, as profissões, as relações entre pais e filhos e entre alunos e professores, sempre com objetivos formativos. Em Santa Cruz, depois Aracruz, isso não foi diferente, destacando-se os grupos das professoras Amália Coutinho, Jandira, Bibiana e outras, nas décadas de 40 e 50. Com elas, tanto o teatro sacro quanto o teatro didático sobreviveram até os nossos dias, com peças teatrais e esquetes, principalmente nas igrejas católicas, evangélicas e nas escolas. Era um teatro saudável, sem objetivos de chocar as pessoas, onde as famílias podiam apreciar os talentos de seus filhos. Em Sauassú, primeiro nome da cidade de Aracruz, esses tipos de teatros sempre existiram desde a transferência da sede, em 1950, tendo Pedro Cabral se destacado como ator, diretor e dramaturgo nos anos 60 e 70.
A mudança com Rodrigo Paouto
Em 2004, um jovem talento vindo de São Paulo, com nome artístico de Rodrigo Paouto, criou um grupo de teatro amador, sem um espaço cênico para representar. Em 2005, a Prefeitura de Aracruz criou o Teatro Municipal, dentro da secretaria municipal de Cultura, cujo secretário, José Maria Coutinho, acreditou na proposta teatral de Paouto e reiniciou as atividades cênicas, confiando-lhe a formação do primeiro grupo oficial de teatro de Aracruz, que começou representando a peça “Couro de Cabra e a Promessa”. Outras peças se sucederam, destacando-se “Zazimba Gaba”, escrava africana do município de São Mateus, adaptação da história dessa guerreira retratada nos livros do especialista mateense Maciel de Aguiar, resgatando-se o teatro histórico, com platéias formadas principalmente pelos alunos das escolas de ensino médio de nossa cidade. O grande público, em geral, pouco comparecia e as elites locais preferiam ficar em casa, inclusive a maioria dos políticos.
Uma nova era teatral
Com a contratação do novo diretor teatral, Jonas Mota, registrado no Sindicato dos Artistas do Espírito Santo, o Teatro Municipal vem sendo aberto para as apresentações das escolas municipais e estaduais, valorizando-se pela primeira vez a Semana do Folclore. O diretor Jonas Mota, sócio-proprietário da Companhia Teatral Arte 027, trouxe sua trupe de Vitória, juntando com os novos alunos e causando grande entusiasmo nas crianças e adolescentes, que vêm se inscrevendo nas novas oficinas de teatro, sem cobrança de taxas ou mensalidades. Já temos 60 novos alunos inscritos, os quais formarão o segundo e atual grupo oficial do Teatro Municipal de Aracruz.
Dessa forma, as novas peças teatrais da Semana do Folclore, em forma de esquetes, produzidas e apresentadas pelos novos alunos, sob a direção de Jonas Mota, percorreram 10 escolas, para a alegria da criançada e dos diretores e professores. Foram apresentadas histórias contadas pelo Vovô Crispim (o próprio Jonas) envolvendo os personagens das lendas e mitos indígenas brasileiros, como o Saci, a Caipora, o Curupira, a Yara e outros.
Receberam a trupe folclórica as seguintes escolas: Abílio Correia de Amorim (269 alunos), Eurípedes Nunes Loureiro (436 alunos), Ezequiel Fraga Rocha (875 alunos), Paulo Freire (380 alunos), CAIC Maria Luiza Devens (636 alunos), José Marcos Rampinelli (488 alunos), Honório Nunes de Jesus (247 alunos), Placidino Passos (1.123 alunos) e Marechal Costa e Silva (266 alunos), totalizando 4.454 alunos entre crianças e adolescentes, um verdadeiro sucesso de público. O Teatro Municipal abriu as portas para as artes musicais, iniciando o seu programa de auditório (estilo anos 40-70), intitulado “O Domingo é Nosso”, onde apresenta um “Show de Calouros” a cada 15 dias, já incluindo 54 grupos de dança e cantores individuais, um conjunto musical com Erasmo Gonçalves, mestre de bandolim e violão de Barra do Riacho, totalizando mais de 150 futuros artistas.
Para o ano que vem está sendo articulando com as escolas a preparação de algo inédito em Aracruz, o I Festival Municipal do Teatro Escolar, que vem entusiasmando as diretoras e professoras, com a possibilidade do resgate do teatro didático, lúdico e histórico, democratizando o acesso de todos ao espaço multiuso do Teatro Municipal.
José Maria Coutinho é professor universitário e secretário municipal de Cultura, Desporto e Lazer de Aracruz.